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Homenagem do filho a Déa Januzzi, que completaria 69 anos neste 9 de julho

Por Maya Santana

Gabriel com mãe, a extraordinária jornalista, colaboradora do 50emais, falecida em novembro de 2020

Gabriel Januzzi, 50emais

As coisas com o seu cheiro estão acabando. Doei e vendi as roupas, os colares e ainda tento vender alguns jogos de mesa e pratos. Tudo para sobreviver na pandemia. Ainda estou procurando emprego. Cheguei a trabalhar no Canto da Rua, como você, mãe. Seu cheiro ainda resta nos cremes de pele e de cabelo que deixou. Os móveis e as suas taças estão aqui, junto aos quadros e troféus seus e de vô Guará. Será que um dia também ganharei algum?

Ainda tento arrumar os livros, a biblioteca que construímos ao longo dos anos. De vez em quando, leio um ou outro livro, mas já li e reli o “Coração de Mãe” e “Olhem para as estrelas” umas duas, três vezes. Eles são seu legado mais próximo de minhas emoções e lembranças. Crônicas dessa nossa vida de mãe e filho.

Amadureci muito nesses oito meses. Hoje, compreendo você ainda mais, amo você ainda mais. O tempo não para, como disse nosso poeta Cazuza, e muita coisa mudou. Sofro pela saudade. Sempre foi minha amiga, cúmplice, mestre e conselheira. Está frio neste primeiro São João sem você. Parece que a mãe terra está nos avisando para mudarmos logo.

Aqui o presidente ainda é “aquele”, mas alguns ministros já caíram, por corrupção. Cairam muitos irmãos e irmãs pelo mundo, vítimas da pandemia e da maldade, que você chegou a ver surgir. Até hoje não fomos vacinados. Lá se vão mais de 510 mil mortos. Mas, aos poucos, vamos retomando, ocupando novamente o lugar da fala: caíram trumps, fujimoris, macris… No Chile conseguiram eleger para o Parlamento, uma Lagmien Mapuche, líder indígena que ajudara na nova constituição. Rasgaram em fim o legado cruel da constituição de Pinochet. Puniram pela primeira vez um torturador no Brasil.

Viciei em celular.Lembra que eu discutia com você pra largar dele e dar um tempo? É. A modernidade na cidade não permite ficarmos sem conexão. A natureza da Serra do Cipó permitia. Foi uma honra morar na roça com você. Será um longo inverno sem você, mas vamos a luta!

Ontem sonhei que estávamos numa roda de amigos conversando, como sempre. Foi meu primeiro sonho com você. Só eu e você nos compreendíamos. Nossos amigos perguntavam por que eu falava sozinho. Eles não conseguiam escutar você. Quando me virei para rebatê-los, provar que você estava lá, na volta do corpo, você já não estava
Daí, eu acordei. Confuso, não sabia quem tinha atravessado a ponte: teria sido eu a ir ao astral? Ou foi você que veio me visitar aqui na terra>

Aqui, está tudo bem. Só que estou sangrando. Sobrevivo tentando ainda fazer o que gosto, agarrado nas habilidades que adquiri. Obrigado pelas oportunidades do seu complacente amor. Muitos amigos sentem saudades: Maya, Clementina, Cláudio, Kátia e Janaína. Elian, Neuza, Maria Clara, Pedro e muitos mandam um beijo no coração. Recebo pêsames pela sua passagem até hoje. Você foi uma mulher e tanto. Uma artífice das palavras, que conquistou o coração das mães e dos filhos que te conheceram.

Já me mudei três vezes, só para não perder o nosso costume de “ciganos do asfalto”. Mas penso em, finalmente, fincar raízes em algum lugar. Irei conquistar meu espaço no tempo. A vida tem seus sinais. Por coincidência, vim morar numa casa que dá fundos para o Colégio Batista, ao lado da Rua Silveira onde você passou a infância. A casa em que vocês moraram ainda está lá, sua foto em preto e branco assentada no muro da casa ainda está aqui. Por isso pude reconhecer o lugar.

Agora terei tempo de escrever. Alexandre está me ajudando, do jeito dele, meio maiakovsky, meio lua virada. Está presente. Minha amiga mais próxima nesse momento é a Mel, a cadela que tanto questionei a adoção. Talvez você soubesse o que estava por vir. Ela continua carinhosa, fiel e atenta. Todos se apaixonam por ela: Mel minha real amiga. Ainda bem que você a encontrou.

Agora, em casa, vou abrir uma cerveja em sua homenagem. A grana tá curta para comprar um vinho, mas sinta-se brindada! Fiz feijão gordo, farofa de couve e arroz integral. Sei das vezes da memória: hora saudade, hora gratidão. Continuo a amar a vida como você ensinou: na sincera entrega, no sensível diálogo com a diversidade, ainda que o caos esteja batendo à porta.

Quando quiser e puder, me visite em sonhos, sou parte de você. Depois, me conte o que aprendeu com a vida. Mande recado pelo beija-flor, pelos homens lunares e mulheres solares que estão ao teu lado no astral.

Amo você, mãe.

Feliz 69 anos!

Leia também: Morre aos 68 anos a brilhante jornalista Déa Januzzi

Em memória de Déa Januzzi, a talentosa bordadeira de textos

Conversando com Deus

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8 Comentários

Graciano Januzzi 12 de julho de 2021 - 21:00

Nossa, que lindo texto, Gabriel!
Como vc escreve bem, herdou esse dom da sua mãe.

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Elzira 11 de julho de 2021 - 14:48

Seu texto me fez sentir saudade do texto de Déa. E dela também. Força!

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Thaty 10 de julho de 2021 - 23:32

Lembrei de vocês na Igreja de N S do Bonfim. E a semana dele! Dia 9, dia do niver desta mãe querida, brilhante, sensível!, sendo assim , por fazer este homem de tantos princípios, tanta bondade e de tanto amor no coração ! Parabéns Dea por ter deixado uma raiz tao forte! É o mais importante para a nos que somos maes! Deus lhe abençoe!!! Parabens por este texto lindo!!!

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ANA MARIA CAVALCANTI 10 de julho de 2021 - 13:04

UM BELO TEXTO DE AMOR. PARECE QUE VC PUXOU A SUA MÃE.

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Maria Elisa Santana 9 de julho de 2021 - 22:47

Que bonito, Gabriel!!! Saudades de Déa. 💐

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Ivone Maria Diniz 20 de julho de 2021 - 19:13

Texto encantador. Que pena que algumas mães vão embora fazendo a grande viagem. Perdi a minha mãe e me sinto assim.

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Nenez 9 de julho de 2021 - 22:33

Que lindo! Que bem escrito!

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Jandira Rodrigues de Amorim 10 de julho de 2021 - 12:46

Lindo Gabriel ,pode ter certeza ela ficou feliz com o texto escrito por vc ,maravilhosa carta ,todos sentimos a falta da tia Dela.Um grande abraço .

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