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Mesmo sem poder viajar, é muito bom ler as histórias dessa mochileira de mais de 50

Por Maya Santana

Márcia Reis em Congonhas do Campo, terra dos profetas de Aleijadinho, em Minas Gerais

Uma das muitas facetas terríveis dessa pandemia é que não podemos mais viajar. Vamos ter que esperar o perigo passar e a vida voltar mais ou menos à normalidade para sair pelo Brasil ou pelo mundo. O mais angustiante dessa espera é não termos a menor ideia de quando ela terá um fim. Ainda não conseguimos vislumbrar claridade no horizonte. Talvez por isso, eu que gosto tanto de viajar, tenha achado tão agradável ler sobre as aventuras de Márcia Reis, que se tornou mochileira depois dos 50 anos. Ela pôs o pé na estrada e descobriu um mundo inteiramente novo e fascinante.

Veja o relato que ela fez para o Uol:

Após trabalhar por três décadas, a brasileira Marcia Reis se aposentou aos 51 anos e, algum tempo depois, se sentiu infeliz. “Quando eu estava com 55 anos, minha filha mais nova saiu de casa para cursar a faculdade e fiquei sozinha, sem muito o que fazer. Comecei a me ver entristecida e enfiada dentro de casa. Nada me dava prazer. E um belo dia, comecei a chorar muito. Percebi que estava deprimida”, conta.

Márcia curtindo as belezas do Rio de Janeiro

A única coisa que me veio na mente foi viajar. Mas eu não queria viajar cinco dias. Queria sair sem data para voltar. Mas, como sou aposentada, pensei que meu dinheiro não seria suficiente para uma viagem longa”.

Buscando soluções para superar esta encruzilhada, Marcia adotou o estilo de vida dos mochileiros: viajar sem gastar muita grana, se hospedando em hostels e se virando para comer e passear de maneira econômica. “Pesquisando na internet, descobri que existia esta forma de viajar, que era diferente do que eu tinha visto na minha vida inteira”, afirma.

Seu primeiro destino foi Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, que visitou sozinha em 2018. “Comecei indo para pertinho de casa [na época, ela morava na cidade fluminense de Porto Real], para sentir como seria a experiência. Reservei duas noites em um hostel barato de Arraial, com diárias de R$ 25”.

Na cidade de Canela, no Rio Grande do Sul

A primeira dificuldade, porém, não demorou para aparecer: Marcia levou uma mala de rodinhas, equipamento com o qual estava acostumava a viajar ao longo da vida. Mas viu que, ao viajar sozinha e ficar nos apertados hostels, este tipo de mala se tornava um incômodo. “Foi um transtorno arrastá-la para cima e para baixo”, lembra.

Dentro do hostel, porém, ela interagiu com uma argentina que estava conhecendo o Brasil com um grande mochilão — e percebeu que seria prático adotar o mesmo estilo da “hermana”.

“No mês seguinte, fui para Curitiba e, lá, comprei minha mochila. Foi uma coisa libertadora”, afirma. “E, com a experiência do hostel, descobri que podia viajar sozinha. Soube que, neste tipo de hospedagem, eu sempre teria companhia”.

Marcia diz que, no começo, sentiu dor nas costas ao carregar o mochilão (que chegou a ter 14 quilos), mas que logo se adaptou. “Aprendi a ser minimalista, carregando só o que é necessário”.

Na capital sergipana, Aracaju

E, depois de Curitiba, enfileirou diversas viagens no melhor estilo mochileiro, visitando destinos como Foz do Iguaçu (PR), Caraguatatuba (SP), Ubatuba (SP), Vila Velha (ES), Diamantina (MG), Morro de São Paulo (BA), Salvador (BA) e Maceió (AL). “Não quis parar mais”, diz.

Para marcar esta nova fase da sua vida, ela criou o perfil @coroamochileira cujo lema é: “para mostrar às mulheres que podemos conhecer o mundo na 3ª idade com economia e prazer”.

Nos hostels em que se hospeda, Marcia (que está hoje com 57 anos) quase sempre se depara com viajantes de faixa etária mais baixa do que a sua. “No começo, eu tinha receio de chegar e me ver no meio daquela galera com menos de 30 anos. E eu aqui com quase 60. Mas sempre fui extremamente bem recebida. Notei que fico muito feliz em conhecer pessoas completamente diferentes da minha realidade”, conta.

Interagir com os jovens abre a minha mente e descortina novos horizontes para mim.

Trabalhando em um hostel, em Vila Velha, no Espírito Santo

Provoca uma transformação interna. Eu amo isso”. Ela relata que já fez grandes amigos e que, constantemente, sai para passear com eles. “Sinto, nas viagens, que as pessoas gostam de mim por quem eu sou. Muitos jovens dizem que me admiram, por eu ser quase sessentona e estar ali me divertindo, vivendo e curtindo novas experiências.

Isso me faz muito bem”. E dormir em habitações compartilhadas? É um desafio?

“Nunca foi um problema dormir nestes quartos. Já fiquei em quartos só com mulheres e também mistos. E sempre foi tranquilo. Eu durmo rápido, então não tenho problema com o ronco de outras pessoas”.

“Já trabalhei na recepção de hóspedes, preparei café da manhã e fiz a parte da limpeza”, relata. “São trabalhos que geralmente ocupam cinco horas do dia, deixam a hospedagem mais em conta e geram uma troca de experiências bem legal”.

E, com parte do dinheiro que consegue economizar, Marcia, logicamente, faz atividades de turismo. Quando esteve em Canela (RS), por exemplo, ela contratou um tour que a levou até o incrível Parque Nacional de Aparados da Serra.

Em Diamantina, terra de Juscelino Kubitschek, em Minas

Além disso, como boa mochileira, ela sempre busca atrativos turísticos que sejam gratuitos nas cidades que visita — e não tem medo de bater muita perna ou pegar transporte público para chegar até eles.E, para se locomover entre cidades, já pegou até carona. “Uma vez, peguei carona no caminhão de uma pessoa conhecida para ir de Recife a Belo Horizonte”, relata. “Foram quatro dias de viagem”.

Atualmente em casa por causa da pandemia, a mochileira diz que não pretende parar de explorar novos lugares tão cedo. “Um de meus próximos objetivos é fazer um trabalho voluntário em um hostel de Búzios e, também, mochilar pelo Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Descobri que a minha idade não importa. Sempre vou ter um lugar novo para conhecer. E percebi que sou feliz com este estilo de vida”.

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