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Saia da senadora Kátia Abreu feita de gravata de colegas não agradou

Por Maya Santana

A senadora, 59, do Tocantins com a saia confeccionada com gravatas dos senadores. Foto: Arquivo pessoal

Atenta à votação para a escolha, nesta semana, dos presidentes da Câmara Federal e do Senado, confesso que não prestei atenção à roupa que a Senadora do PP de Tocantins Kátia Abreu,59, usou no dia da escolha dos presidentes das duas casas. Só quando li o artigo abaixo, me detive no traje. Honestamente, achei feia. Mas, mais do que isso, me pareceu de mau gosto. Num momento tão delicado pelo qual o país passa, comparecer ao Congresso de “fantasia,” não manda um bom recado para os brasileiros. Kátia Abreu escreveu no Instagram que ela própria pediu aos senadores as gravatas, que têm o nome de cada um do lado de dentro. A autora do artigo, Ruth Aquino, de O Globo, faz uma crítica dura à senadora.

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Passou batido. A saia da senadora Kátia Abreu com 30 gravatas de colegas foi divulgada como “inovação no visual”. Ela exibiu os nomes dos senadores atrás. Senti vergonha alheia e incredulidade. Num país que ocupa o 140o lugar em representatividade feminina no Congresso, a senadora pede gravatas para confeccionar uma saia com modelo do Pinterest e posa assim na eleição do presidente do Senado?

Gosto não se discute, mas o simbolismo me chocou. A submissão confirmada. A mera figuração na política. A senadora-acessório. Ela queria homenagear os colegas com sua saia rodada de gravatas de souvenir. No Carnaval de 1998, Luma homenageou o marido Eike. Desfilou na Sapucaí com uma coleira com o nome dele. Queria mostrar que tinha dono. Achei divertido. Era a fantasia de uma vedete seminua, sambando na frente de 300 ritmistas. No Congresso de 2021, a saia de gravatas é a pós-coleira. Não estamos no Carnaval, mas parece. Bebem em festas profanas de desmascarados, ao som do brega e sertanejo. Num Brasil com 230 mil mortos.

Como criticar saia de gravatas diante de tantos descalabros? A moda é um ‘statement’ político e uma comunicação poderosa. Ao ver Katia Abreu, eu me lembrei de outra mulher com K. A vice-presidente dos EUA Kamala Harris. Roupas de figuras públicas transmitem mensagem. São escolhas. Em seu primeiro discurso, Kamala, negra, pai jamaicano, mãe indiana, vestiu um terno de cor branca, símbolo da luta das mulheres pelo direito ao voto. E de paz.

Kamala com o marido, advolgado Douglas Emhoff, na festa do Oscar da revista Vanity Fair

Kamala acertou. Sua estilista, Carolina Herrera, uma imigrante venezuelana. Kamala não envergava uma gravata na camisa mas um laço, toque feminino no terno impecável. O branco tem sido usado por congressistas americanas, sempre como bandeira contra a discriminação. A roupa reforçava sua fala. Sou a primeira, mas não a última. Eu me ergo sobre seus ombros. Homenageou tanto as sufragistas e congressistas do passado quanto as mulheres que estão por vir.

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Oscar Wilde dizia que só os superficiais não ligam para a aparência. Procurei um estilista, Thomaz Azulay. O que achou da saia de Kátia Abreu? “As gravatas usadas eram muito feias. Não há muita elegância nos ternos dos congressistas em Brasília. Ou são apertados, estufados pela barriga, ou são folgados. As gravatas são gritantes. A saia não ficou agradável visualmente. Parecia uma bandeirola de senadores pendurados na cintura. Faltou equilíbrio de cores. E adequação. Entendi que a senadora achou a ideia divertida. Mas a saia era inadequada para a ocasião, que pedia algo mais sóbrio”. Opinião de quem entende de moda.

Não somos ingênuas. Ser mulher (ou homem) não confere atestado de competência, ética, decoro, educação, elegância. A deputada Bia Kicis é uma extremista mentirosa que chamou o ministro Celso de Mello de “juiz de m…”. Ela está mais para parça da Sara Giromini, cujo acessório é a tornozeleira eletrônica. São investigadas no inquérito de fake news e incitação a atos antidemocráticos. Bia Kicis na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara? Não.

Mas, apesar de Kicis, de Flordelis e de outras, não se pode fechar os olhos à disparidade de gêneros nas posições de Poder. No Senado, são 12 mulheres de 81. Na Câmara, 77 de 513. Nas empresas, quando 20% das vozes influentes são femininas, significa “tremendo progresso”. É estranho entrar em salas de conferências com aquele mar de homens de terno. Nós, mulheres, achamos esquisito. Eu me sinto às vezes “Numa terra estranha”, como James Baldwin. Não podemos deixar para filhas e netas um mundo em que homens mandam e uma senadora acha bonitinho usar saia de gravatas no Congresso.

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