O que precisamos fazer para por fim ao assassinato de mulheres?

juíza viviane vieira do amaral arronenzi, 45, assassinada pelo ex-marido com 16 facadas, na frente das três filhas pequenas

É muito difícil compreender o que leva um homem de 52 anos a matar a mãe de suas três filhas – uma de 9 e as outras, gêmeas, de 7 – de forma monstruosa, na frente das meninas. O que se sabe é que a juíza Viviane Vieira do Amaral, 45, se recusava a aceitar a continuidade do casamento de mais de 10 anos, aparentemente por causa do gênio violento do marido, o engenheiro Paulo José Arronenzi. Num ataque de fúria, ele desferiu 16 facadas em Viviane, inclusive no rosto e nas costas, quando ela já estava caída,.e destruiu a sua família e a própria vida.

Mais um crime bárbaro contra uma mulher. Eu sempre me pergunto que força doentia é essa que se apossa de certos homens e faz com que fiquem cegos de ódio a ponto de, covardemente, exterminar suas companheiras e causar traumas irreparáveis nos filhos. E isso está acontecendo a toda hora no Brasil. Acabo de ver no noticiário da televisão que seis mulheres foram assassinadas em diferentes partes do país, pelos maridos e companheiros. Eu me pergunto o que temos que fazer. além de lamentar, para por um fim a esse absurdo.

De onde temos que começar, para mudar essa situação? Por que os casos de assassinatos de mulheres, quase sempre cometidos por ex-maridos ou ex-companheiros, se multiplicam e não se vê uma mudança na sociedade? Até quando vamos aguentar essa barbárie? São perguntas para as quais todas nós mulheres deveríamos exigir uma resposta.

Leia os detalhes do assassinato brutal da juíza nessa reportagem de Vera Araújo, Paolla Serra, Rafael Nascimento de Souza, Felipe Grinberg e Arthur Leal, de O Globo:

Com a pandemia, o convívio com as melhores amigas diminuiu, e o silêncio sobre o problema, tão delicado, aumentou. Viviane Vieira do Amaral era reservada, e nas raras vezes que tocou no assunto o fez por uma imposição de fatos que não podiam ser escondidos, como uma briga na rua e uma tentativa de invasão do apartamento da mãe, para o qual havia se mudado com as três filhas. A juíza, de 45 anos, passou os últimos meses sofrendo. Seu ex-marido, o engenheiro Paulo José Arronenzi, de 52, reagia violentamente a cada esforço fracassado de retomar o casamento que ela decidiu terminar em julho.

O engenheiro Paulo Arronenzi, preso logo após matar a ex-mulher Foto: Reprodução

Três meses depois de denunciá-lo à polícia e passar a contar com uma escolta cedida pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Rio, Viviane foi assassinada a facadas por Paulo José. O feminicídio ocorreu no fim da tarde de quinta-feira na Barra, no momento em que entregava as meninas ao pai, com quem esperavam passar a noite de Natal. Estava sozinha com as filhas, de idade entre 7 e 9 anos: tinha decidido, um mês atrás, abrir mão do esquema de proteção. Sentia-se incomodada com a presença permanente de seguranças e queria preservar, apesar de tudo, a imagem do homem com quem viveu por mais de uma década e formou uma família.

— Era uma pessoa supertranquila, que nunca impediu as filhas de verem o pai — afirmou nesta sexta-feira um dos seguranças que faziam a escolta de Viviane. — Levávamos ela e as crianças no carro para vários lugares. As meninas ficavam um tempo com ele e depois voltavam com a doutora — completou.
 

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Uma colega do Tribunal de Justiça do Rio também comentou o esforço de Viviane para poupar as crianças do relacionamento conturbado com Paulo José.

— Ficou evidente que ela tentava preservar a figura do ex-marido como pai. Tentou se proteger e, ao mesmo tempo, protegê-lo. Acabou abrindo mão da escolta por pena dele — disse uma magistrada, que pediu anonimato.

A juíza Simone Nacif, que era amiga da vítima, lembra que Viviane era uma mulher forte e que sempre quis preservar as filhas.

— Viviane era uma mulher forte, independente financeiramente e reservada. Estava refém de um relacionamento que demonstrava ser fatal — disse. — Ela procurou os órgãos oficiais, fez um registro de ocorrência e chegou a pedir uma escolta, mas pode ser que tenha achado que o perigo havia passado. Queria preservar as filhas.

A escritora e também juíza Andréa Pachá, que tinha uma relação profissional com a vítima, destacou que muitas vezes o silêncio marcou casos de feminicídio:

— Essa violência ocorre em todos os locais e classes sociais. E o silêncio não é só por medo, mas pela convicção de que é possível reverter a situação com racionalidade.

O autor das facadas foi preso por integrantes da guarda municipal logo após o gesto tresloucado

O esquema de proteção havia sido pedido em 14 de setembro. Acreditando que o engenheiro havia aceitado a separação, Viviane lhe deu uma carona para que ele pudesse visitá-las. Mas aconteceu uma discussão, e ela foi ameaçada de morte. Ao ser alertado que estava sem condições de vê-las, Paulo José empurrou a ex-mulher e forçou a entrada no prédio da mãe dela, em Niterói. A PM foi chamada e, algumas horas depois, a juíza registrou queixa na 77ª DP (Icaraí) e solicitou medidas protetivas.

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A escolta durou dois meses. Viviane acabou por assinar um termo de responsabilidade no TJ ao pedir sua suspensão. Nesta quinta-feira, aceitou um pedido de Paulo José para encontrá-lo com as filhas numa rua de pouco movimento da Barra. Foi atacada ao sair do carro para entregar as crianças. Após o feminicídio, o engenheiro se sentou ao lado do corpo, enquanto uma mulher tentava consolar as meninas. Uma equipe da Guarda Municipal o prendeu, e, ao ser perguntado por que fizera aquilo, balançou os ombros, sem falar nada. No carro do assassino, foram encontradas três facas, o que dá à polícia a convicção de que se trata de crime premeditado.

Levado à Delegacia de Homicídios, Paulo José permaneceu calado. Disse apenas que só se manifestará perante a Justiça. Em 2007, ele já havia sido denunciado por agressão e ameaça a uma ex-namorada. Nesta sexta-feira, sua prisão em flagrante foi convertida em preventiva, desfecho tardio para uma crise que se agravava.

Conselho Nacional de Justiça divulgou nota e esse cartaz

A juíza Viviane Vieira do Amaral e o engenheiro Paulo José Arronenzi se casaram em 1º de agosto de 2009. A foto da cerimônia, publicada em um site para noivas, mostra a magistrada sorridente, ouvindo o discurso do companheiro. Os convidados acomodados em um espaço verde, ao ar livre, também parecem alegres. A cena contrasta com a tragédia que marcou a história da família na quinta-feira, véspera de Natal, quando Paulo assassinou Viviane a facadas, na Barra da Tijuca.

Repercussão

A morte de Viviane, que era juíza há 15 anos e trabalhava na 24ª Vara Cível da Capital, teve grande repercussão em todo o país. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Luiz Fux, disse que as duas instituições estão consternadas e comprometidas com o desenvolvimento de ações para prevenir e erradicar o feminicídio. “Tal forma brutal de violência assola mulheres de todas as faixas etárias, níveis e classes sociais, uma triste realidade que precisa ser enfrentada”, afirmou, em nota.

Outro integrante da Corte, o ministro Gilmar Mendes, comentou pelo Twitter que o assassinato “mostra que o feminicídio é endêmico no país: não conhece limites de idade, cor ou classe econômica” e destacou que o combate à violência contra a mulher deve ser prioritário. Em nota conjunta, a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro e a Associação dos Magistrados Brasileiros informaram que entraram em contato com a família de Viviane para prestar apoio e prometeram não deixar que sua morte e outros casos de feminicídio fiquem impunes.

O Ministério Público e a Defensoria Pública do Rio também manifestaram pesar, assim como o governador Cláudio Castro, que destacou a importância do programa estadual Patrulha Maria da Penha, criado para proteger vítimas de violência doméstica. Presidente do TJ, o desembargador Claudio de Mello Tavares repudiou o assassinato e defendeu “a maior campanha de todos os tempos contra a violência doméstica”, além de colocar à disposição todo o apoio institucional à família da juíza.

 

 

 

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