“Quando não escrevo, é como se estivesse morta”, autora de quase duas dezenas de livros. Foto: Reprodução/Internet
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Uma entrevista exclusiva conseguida por O Globo com Annie Ernaux, 84, a única escritora francesa até agora a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura (em 2022).
Na conversa, ela diz que essa pode ser a sua última entrevista. “Tomei decisões drásticas: estou te recebendo aqui hoje, mas acho que não vou receber mais ninguém. Não tenho nada marcado para 2025” – adiantou a escritora.
Em sua casa, a uma hora de Paris, Annie respondeu a todas as perguntas, algumas com respostas até longas. Outras, bem curtas. Falou da influência da mãe na sua trajetória, de como se afastou de sua origem humilde, do impacto do Nobel na sua vida, de feminismo e de como as mulheres estão longe de serem livres.
“A liberdade feminina ainda está para ser conquistada. A dominação masculina é evidente… Um exemplo muito simples: quando pedem para as pessoas citarem escritores, é raro que mencionem uma mulher. Os primeiros que vêm à cabeça são sempre homens. Ainda temos muito, muito, muito a conquistar”, diz a escritora, que já esteve no Brasil.
Leia a entrevista completa:
A única pista de que estamos no lugar certo está escondida debaixo da folhagem: a caixa de correio, onde se lê “Ernaux”. A sensação térmica é de três graus. O portão de ferro, que não chega a um metro de altura, está aberto, e um caminho de terra pelo jardim em declive conduz à entrada da casa. Ouvem-se passos firmes se aproximando, e Annie Ernaux abre a porta com um sorriso.
Após meses de negociação, a única mulher francesa laureada com Nobel de Literatura recebeu O Globo em sua casa, em Cergy-Pontoise, a uma hora de trem de Paris. Divorciada e mãe de dois filhos, estava acompanhada apenas por seus gatos Sam e Zoë (que preferiu não dar as caras na biblioteca, onde aconteceu a entrevista).
Antes de nos sentarmos, alguns comentários inevitáveis sobre a viagem de trem e o frio. Ao ouvir sobre o calor que faz no Brasil nesta época, ela respondeu: “Sim, eu sei. Eu me lembro de quando estive lá”. Em novembro de 2022, Ernaux participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Esta é a sua primeira entrevista à imprensa brasileira desde aquela semana na Costa Verde.
Nascida em 1º de setembro de 1941, numa família de ex-operários que comandavam um café-mercearia no Norte da França, Annie foi a primeira da família a completar os estudos. Cursou Letras e se fez professora. A aquisição da “cultura dominante”, porém, resultou num doloroso afastamento dos pais e de suas origens populares, processo narrado em obras como “O lugar” e “Uma mulher”. Em meio século dedicado à escrita, Ernaux aperfeiçoou um gênero literário, a autossociobiografia: em seus livros, ela conta a própria vida dando ênfase não à sua individualidade, mas às condições que moldaram sua trajetória, como a classe social em que nasceu e o próprio sexo.
Em “O acontecimento”, livro que recorda o aborto clandestino a que se submeteu aos 23 anos, ela afirma: “o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”. Desde 2021, a Fósforo vem editando sua obra completa no Brasil. Em maio, sai “Memória de menina”, que narra o primeiro encontro da autora com o sexo, na adolescência.
Na conversa, a escritora comentou o papel da mãe em sua trajetória, deu conselhos aos “trânsfugas de classe” brasileiros (aqueles que, como ela, ascenderam socialmente graças à educação) e explicou por que não quer mais dar entrevistas. Confira a seguir::
A senhora disse que não gostaria que o Prêmio Nobel a impedisse de viver plenamente a velhice. O que tem feito para garantir isso?
Tem sido uma luta, uma briga de faca (risos). Um imbecil colocou meu e-mail na internet e recebo muitas mensagens. Todas muito gentis, evidentemente, mas me roubam o tempo. Recebo pedidos de todo lado. Me pedem para escrever prefácios, para participar de eventos. Agora eu sou uma marca. Quem é convidada não é a escritora, é “a Prêmio Nobel”. Não quero viver minha velhice assim. Tomei decisões drásticas: estou te recebendo aqui hoje, mas acho que não vou receber mais ninguém. Não tenho nada marcado para 2025.
A velhice da sua mãe é tema de “Uma mulher”. Como ela influenciou a sua trajetória?
Minha mãe valorizava muito o trabalho, o esforço pessoal. Ela achava que as mulheres que ficavam em casa cuidando dos filhos não trabalhavam. É uma opinião injusta, é claro, mas na época esse não era um trabalho valorizado. Com seu exemplo, e suas palavras, ela me ensinou o valor de se ter uma profissão. Suas opiniões eram sustentadas por uma fé católica muito forte. Não supersticiosa, mas tradicionalista. Essa foi a base sobre a qual eu cresci.
Em “O acontecimento”, a senhora apresenta um desejo de transformar seu corpo e seus pensamentos em escrita. Como é o processo?
É o que me move, é por isso que, na minha idade, ainda quero escrever. Quando não escrevo, é como se estivesse morta. À medida em que eu escrevia, foi se revelando esse desejo de me considerar como um objeto, como alguém que não tem nada de excepcional. Esse sentimento de pertencer a um coletivo tornou cada vez mais relevante o meu trabalho.
Essa comunhão entre o pessoal e o político, o histórico e o individual, está no centro de “Os anos”, que é o seu romance mais ambicioso.
Sim, em “Os anos” realmente coloquei o coletivo no centro. O livro tem fotos pessoais minhas, que registram o tempo. O truque é encontrar a forma adequada. Na escrita, não bastam ideias, é preciso torná-las sensíveis. Essa é a diferença entre uma obra literária e uma filosófica. A filosofia fala à inteligência; a literatura fala à sensibilidade, ao inconsciente.
Considera-se dona de uma escrita engajada?
Quando escrevi “O lugar”, percebi, pelos ataques que recebi, que me consideravam uma escritora engajada. Na cabeça desses críticos, eu não era só engajada, como mal engajada (risos). Tomei consciência disso e assumi meu engajamento.
Está escrevendo um livro novo?
Sim, estou escrevendo várias coisas, mas não estou conseguindo me dedicar como gostaria. É por isso que este ano não quero ter nenhum compromisso.
Sobre o que está escrevendo?
Nunca falo. Uma vez eu falei e acabei não escrevendo. É melhor não falar (risos).
A experiência do aborto já aparecia em “Les armoires vides” (Os armários vazios), seu primeiro livro. Como esse episódio definiu o seu projeto literário?
O aborto foi gatilho da escrita de “Les armoires vides”. Em 1972, eu já era professora e passei seis meses tentando escrever meu percurso de trânsfuga de classe, mas não conseguia. Lembrar do aborto me motivou a escrever. O aborto se tornou um elemento estrutural do livro, mas só fui buscar a verdade dessa experiência em “O acontecimento” (2000).
A senhora escreve sem eufemismos sobre o desejo feminino em livros como “Paixão simples”, “O acontecimento” e “O jovem”…
Falo do desejo feminino desde “Les armoires vides”. Eu me lembro de alguém dizendo, meio discretamente: “Como você é ousada! Você fala de masturbação feminina!”. Agora tem até artigos no Le Monde sobre isso, mas nos anos 1970 não era assim. Cresci nas classes populares e nós, meninas, falávamos francamente sobre sexo.
Essa franqueza irritou os críticos?
Muito. Desde sempre. Não me reprovavam só por escrever sobre sexo. Uma mulher que escreve sobre sua vida sexual pode ser vista como corajosa. Fui atacada quando publiquei meu diário, “Se perdre” (Perder-se, de 2001), porque escrevi sobre as dimensões mais insuportáveis da paixão feminina. Um homem pode escrever sobre sexo e sua paixão por uma mulher, ou até por outro homem, mas a escrita das mulheres está sempre sob escrutínio, assim como nossa maneira de nos vestir, de falar…
escritoras como Simone de Beauvoir, Monique Wittig e Hélène Cixous a influenciaram?
Eu escrevi “La femme gelée” (A mulher gelada, de 1981) um pouco contra esse feminismo teórico, porque é no cotidiano que a liberdade das mulheres está em jogo. O romance foi tido como feminista demais do ponto de vista da francesa média e de menos da perspectiva dessas autoras.
A senhora tem repetido que a sociedade não gosta de mulheres livres.
A liberdade feminina ainda está para ser conquistada. A dominação masculina é evidente. É só olhar a composição do governo francês… Um exemplo muito simples: quando pedem para as pessoas citarem escritores, é raro que mencionem uma mulher. Os primeiros que vêm à cabeça são sempre homens. Ainda temos muito, muito, muito a conquistar. E os homens também precisam mudar. Tenho esperança de que mudem. Não todos, é claro. Veja o caso dos estupros de Mazan. Para alguns homens, é aceitável fazer sexo com mulher desconhecida, adormecida, dopada. Isso diz muito sobre a persistência de certas crenças na cabeça dos homens.
Li que a senhora mudou de opinião sobre temas como barriga de aluguel e prostituição. É verdade?
Acompanhei a experiência de dois amigos homens, casados, que recorreram à barriga de aluguel. Conheci a mulher que cedeu o útero e tudo isso me fez pensar. Hoje esse casal tem dois filhos, uma família normal. O que me incomoda é que esse processo só é possível se você tem dinheiro. A barriga de aluguel não é autorizada na França, esses amigos precisaram ir ao Canadá. Sou pragmática e me guio por certos princípios, como a liberdade. Mas para exercer a liberdade de ter um filho por barriga de aluguel é preciso ter dinheiro. No fim, é o dinheiro quem decide.
E a prostituição?
Aí é mais complicado. A prostituição é mesmo uma escolha? Não tenho certeza. Por outro lado, me parece que a prostituição se baseia na ideia de que o desejo dos homens é mais forte que o das mulheres e por isso eles têm o direito de pagar para satisfazê-lo. E isso, obviamente, eu não posso aceitar.
No final de “Uma mulher”, a senhora afirma ter transformado sua mãe em “história” para se sentir “menos solitária no mundo dominador”, “cheio de palavras e ideias”. o que quis dizer com isso?
Minha vingança é escrever, é introduzir na literatura, no mundo dominante, uma outra voz. Isso me dá uma sensação forte de existir. Importa o que essa voz revela, não se sou eu ou outro quem escreve. Ainda não me sinto tão bem no mundo dominante. Mas também nem tão mal assim. Minha memória habita um mundo; a minha vida, outro. Sendo uma trânsfuga de classe, me sinto desconfortável com honras, como o Nobel. Ao mesmo tempo, sei que são o resultado da minha escrita, que as pessoas reconhecem nos meus livros e se apegam ao que representam para elas. Nem sempre sou consciente disso, nunca escrevi pensando nos resultados. Estava à procura da verdade.
Ainda tem contato com o mundo popular onde nasceu?
Às vezes, por meio da política. Eu sou o que chamam de “extrema esquerda”. Quando lido com trabalhadores braçais, o jardineiro, por exemplo, não é um contato muito direto. Meus leitores também são gente que saiu desse mundo. Ainda tenho primas, mas hoje minha família é muito pequena. Lembro-me de uma tia, que nasceu em 1900 e morreu aos 92 anos, e depois de ler “Um lugar” e “Uma mulher”, me ordenou: “Nunca pare de escrever assim”. Nunca me esqueci disso.
Há no Brasil uma geração de jovens que, como a senhora, foram os primeiros de suas famílias a estudar, mas devido às crises econômicas, não puderam completar o processo de ascensão social. Que conselho tem para eles?
É preciso buscar soluções políticas coletivamente. E, se possível, sem a extrema direita. Seja no Brasil, seja na França, a extrema direita não está do lado dos trabalhadores, do povo. Ela está na manutenção das hierarquias. Se conseguimos ascender, escapar individualmente, temos que ter consciência de que não é por mérito, mas porque tivemos circunstâncias favoráveis ou, como no meu caso, uma mãe excepcional.
A senhora mandou uma carta ao escritor brasileiro José Henrique Bortoluci, elogiando o livro “O que é meu”, que narra a ascensão do autor por meio da educação e, ao mesmo tempo, a trajetória do pai dele, um caminhoneiro.
A sua obra é uma afirmação da liberdade e da autenticidade. arrepende-se alguma coisa?
Na literatura, não. Talvez tenha alguns arrependimentos pequenininhos (risos). É difícil sentir arrependimentos ou remorso porque nós sempre temos motivos para fazer o que fazemos. Se eu não pensar assim, vou me arrepender de muita coisa. Muita coisa mesmo. Quando chegamos a uma certa idade, nos sentimos mais próximos de nossos pais, muito mais do que éramos na adolescência. Acabamos vendo as coisas de outro jeito e nos julgando de maneira mais dura.