
Márcia Lage
50emais
Da mesma forma que Fernanda Montenegro manteve os olhos úmidos nas duas horas de duração do filme Vitória, os meus, também, não se mantiveram secos ao longo da projeção.
Acredito que ela não estava encenando. Estava vertendo a impotência do cidadão brasileiro comum diante de uma polícia que se mostra tão bandida quanto os bandidos que ajuda a fabricar, para manter a população constantemente amedrontada e refém da insegurança institucional.
Existe policial bom, honesto, cumpridor do dever que ele escolheu para si? Claro que existe. E deve até ser maioria. Desses, a gente ouve notícias de que agiram em defesa de alguém, mesmo estando de folga. Que fizeram uma boa investigação e conseguiram desmantelar uma quadrilha. Sim. As corporações têm seus heróis. Mas têm também seus bandidos, o que leva a população a não confiar neles.
Dona Joana Zeferino da Paz, a heroína de Vitória, filmou de sua janela as atividades criminosas na subida de uma das favelas, em Copacabana, na zona sul carioca. Foi tratada com desrespeito e má vontade quando procurou a polícia para fazer a denúncia. Descobriu depois que a polícia era conivente com o crime.
Por sorte, suas fitas cassete mostrando a bandidagem agindo livremente, inclusive aliciando crianças, não foram parar no lixo. Por mais sorte ainda essas fitas foram vistas por um jornalista investigativo, que confiou o caso a uma delegada honesta e forçou a investigação. Nesse país, querer ter voz e vez é uma questão de sorte.
Dona Joana é o retrato de um Brasil injusto, que não olha no olho do seu povo. Se olhar (e muitos de nós também evita fazê-lo) vai ter que encarar essa miséria, que nega quatro dos pilares da Constituição – muito falados e tão pouco aplicados: o princípio fundamental de que todo cidadão é igual perante a lei e tem direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade.
Fernanda Montenegro representa de maneira impecável a fragilidade de uma idosa sozinha numa grande cidade. Ainda tendo que trabalhar para se sustentar, numa vida destituída de conforto, de lazer, de prazer. Insegura dentro de casa, um apartamento que era rodeado de verde e que, aos poucos, foi cercado pelo banditismo. Impedida de ter amigos, num território onde a violência corrói qualquer resquício de delicadeza entre humanos.
Por debaixo da história de uma mulher que busca justiça para viver em paz está a história do descaso brasileiro para com seu povo: cidades crescendo de qualquer jeito, a infância e a velhice abandonadas, o esforço de viver, do berço à tumba, e, ao final, o sentimento de que nada valeu a pena. Porque não há confiança nas instituições.
Vitória, o filme que conta uma história real, já foi visto por 500 mil pessoas , com debates publicos sobre as questões que aborda. Quem sabe, com sua interpretação magistral, Fernanda Montenegro consiga tocar os corações de quem produz injustiças nesse país.
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