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Ingo Ostrovsky: O tédio nosso de cada dia

Por Ingo Ostrovsky

Tédio. No dicionário Houaiss: “Sensação de aborrecimento ou cansaço, causada por algo árido, obtuso ou estúpido; sensação de desgosto ou vazio sem causas objetivas claras” segundo o Houaiss. Foto:Internet

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Nada mais apropriado. Me caiu na mão esta semana um livro de 2005, Veneno Antimonotonia, da editora Objetiva, organizado pelo poeta e antologista Eucanaã Ferraz. Trata-se de uma belissima coleção de poemas e canções contra o tédio.

Não me lembro qual era o tédio que nos assolava em 2005. Nosso futebol era o melhor do planeta, éramos os “atuais” campeões do mundo, tínhamos vencido a Copa de 2002. Mais de um milhão de brasileiros se preparava para um show dos Rolling Stones na praia de Copacabana, não havia a menor limitação para alegres aglomerações. Multidões entristecidas e chorosas podiam se despedir de seus ídolos, como aconteceu com Ronald Golias, Bezerra da Silva, Miguel Arraes e Emilinha Borba.

Já haviam se passado 15 anos desde a morte de Cazuza. O desejo por um “veneno antimonotonia” – expresso na canção Todo Amor Que Houver Nessa Vida – continuava movendo montanhas, agregando, desagregando, proporcionando viagens para quem só tinha uns trocados para ir até a esquina.

Tédio. No dicionário Houaiss: “Sensação de aborrecimento ou cansaço, causada por algo árido, obtuso ou estúpido; sensação de desgosto ou vazio sem causas claras.”
O que dizem poetas e compositores?

Murilo Mendes: “Eu existo para assistir ao fim do mundo. Não há outro espetáculo que me invoque. Será uma festa prodigiosa, a única festa”.

Manoel Bandeira: “Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria”.

Gilberto Gil: “Quando a gente está contente, tanto faz o quente, tanto faz o frio, tanto faz que eu me esqueça do meu compromisso com isso e aquilo que aconteceu dez minutos atrás”.

Waly Salomão: “Ela é filha bastarda do desvio e da desgraça, minha alegria: um diamante gerado pela combustão, como rescaldo final de incêndio”.

Oswald de Andrade: “Quando o português chegou debaixo de uma bruta chuva, vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de sol o índio teria despido o português”.

Ferreira Gullar: “Aí o homem sério entrou e disse: bom dia, aí o outro homem sério respondeu: bom dia, aí a mulher séria respondeu: bom dia, aí a menininha no chão respondeu: bom dia. Aí todos riram de uma vez menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores, as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros, o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços”.

Cazuza: “Segunda-feira: criar a partir do feio, enfeitar o feio, até o feio seduzir o belo”.

No livro tem mais. Vinicius de Moraes, Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, João Cabral de Melo Neto, Caetano Veloso, Carlos Drummond de Andrade, Aldir Blanc, Mario Quintana, Ana Cristina Cesar… todos com algo a dizer, a acrescentar, a contribuir, a embalar, a escrever e cantar o tédio, essa coisa tão antiga quanto a humanidade.

Vai passar!

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2 Comentários

Dagmar Trindade 18 de abril de 2021 - 11:27

Delícia de texto.

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Ana Helena Nogueira Ribeiro Gomes 18 de abril de 2021 - 08:23

Ingo cada vez melhor nas suas crônicas dominicais. Hoje especialmente pinçou dos melhores pensadores/poetas do nosso Brasil reflexões sobre o tédio, que nos assombra nesta década, mas que é velho conhecido de gente como Murilo Mendes que, se vivo fosse estaria fazendo 120 anos

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