
Márcia Lage
50emais
Sobram vagas no mercado de trabalho – alardeiam as manchetes das agências de notícias. Uma delas diz que os supermercados estão desesperados, porque não conseguem preencher oito funções essenciais. Entre elas, as de padeiro, açougueiro e caixa.
Faltam professores também, leio aqui e ali. E garçons, motoristas de ônibus, auxiliares de serviços gerais, caseiros de sítios, cuidadores de idosos, empregadas domésticas. O que essas profissões têm em comum para serem tão rejeitadas? Longas jornadas de trabalho e baixos salários.
Enquanto o Congresso esperneia para não aprovar a escala 6 x 1 (a pessoa trabalha seis dias consecutivos e tem um dia de descanso semanal) – que, na minha opinião, ainda não avança na construção de uma jornada mais humana para os trabalhadores – os empregadores escravocratas semeiam a intriga nacional contra os benefícios sociais implementados pelo governo.
Afirmam que o bolsa-família de R$ 600,00 criou um bando de preguiçosos, que as mulheres estão parindo feito coelhos, para aumentarem o direito aos R$ 150,00 por filho menor, e que ninguém se interessa mais por uma carteira assinada, pois perdem os benefícios.
Nenhum deles, porém, tem coragem de dizer quanto vai pagar por essas ofertas, que não interessam aos trabalhadores. São profissões duras (açougueiro) que exigem madrugar no serviço (padeiro), com jornadas superiores a 8 horas/dia (caixas). O salário pago não passa do mínimo ( R$ 1.518,00), um e meio, no máximo.
Mesmo um professor, cujo piso nacional é de R$ 4.877,77, jamais ganha isso, pois esse teto é para oito horas diárias de trabalho. E a jornada em classe é de quatro horas. Logo, ele é obrigado a ter dois empregos para chegar a essa renda, infinitamente inferior a um salário de vereador do menor município do pais. Não é à-toa que política, no Brasil virou profissão de tantos malandros.
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Sem mexer na jornada de trabalho (seis horas diretas está ótimo, com descanso de dois dias) e esquecer o salário mínimo como base (já não é nem mesmo para a Previdência Social) o mercado de trabalho vai travar.
Cada vez mais os jovens desistem do emprego formal. Preferem criar microempresas, startups, jogar bets, buscar fama como criadores de conteúdo, entregar comida em motos ou ser motoristas de Uber. Quando não são aliciados pelo tráfico.
O futuro disso é a falência da Previdência Social, que fica sem contribuintes. Os empresários brasileiros torceram tanto a CLT a seu favor que, agora, correm o risco de falir, por falta de empregados. Como aconteceu com o fim da escravidão. Preferiram jogar os escravos na rua do que pagá-los. Promoveram, com o gesto, o fim do ciclo da cana de açúcar e do café.
Essa jornada absurda de oito horas diárias – que acaba sendo de 10, 12, 15, com o intervalo para o almoço e a dificuldade de locomoção – é totalmente desumana para o empregado, que perde oportunidades de estudar, se divertir, cuidar da casa e dos filhos, ir a médicos, dentistas, bancos. Tudo se acumula nos horários de ida e vinda, o trânsito fica caótico, o povo fica nervoso e dá no que dá.
Você se recorda da Elisângela Oliveira de Jesus, de 33 anos, que morreu queimada em fevereiro do ano passado, em Limeira, interior de SP? A imprensa noticiou, na época, que a moça trabalhava numa padaria. Havia saído de casa antes do amanhecer, para começar a trabalhar às 5h da manhã. Voltou para casa às 10h da noite. Amamentou a filhinha e foi fazer o jantar.
Quebrou um ovo dentro de um copo com água, sem perceber. Ao jogar o conteúdo na frigideira quente, provocou uma explosão de consequência fatal. Foi o acidente que a matou ou o extremo cansaço provocado por uma jornada abusiva e a tríplice função de mãe e dona de casa? Ninguém se deu ao trabalho de aprofundar nessa questão.
O escravagismo nosso é estrutural.
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