Cadê os brasileiros que prestam?

Por Maya Santana

“Os senadores a favor da CPI não prestam. Já os que são contra a CPI… também não prestam. Fico com a pulga entre as pernas quando leio isso.” Foto: Antonieta Goulart

Ingo Ostrovsky, 50emais

Fico surpreso e confuso toda manhã quando abro o jornal. Ficar surpreso já seria um espanto nesses dias de noticiário instantâneo em que muitas vezes a gente vai dormir sabendo qual será a manchete do jornal da manhã.

Já a confusão é por outros motivos. Vem de uma constatação difícil de aceitar: ninguém mais presta!

Me lembro com saudade de um tempo em que havia gente que prestava e gente que não prestava. Ou como dizia um talentoso colega, “tem gente que faz e gente que não faz”. Hoje em dia, isso não está valendo.

Conheci uma senhora – que Deus a tenha – que nos últimos anos de vida confundia as coisas, não reconhecia pessoas e inventava palavras. Ela fez muita gente rir trocando o uso de “pulga atrás da orelha” por “o rabo entre as pernas”. Ela falava que estava com o rabo atrás da orelha e com a pulga entre as pernas.

É mais ou menos como eu me sinto lendo o noticiário matinal sobre a CPI da Covid. Os senadores a favor da CPI não prestam. Já os que são contra a CPI… também não prestam. Fico com a pulga entre as pernas quando leio isso. Cadê os brasileiros que prestam? Mudaram de país? Estavam entre os mais de 400 mil que morreram na pandemia?

Na escola aprendemos que na Batalha de Itororó o então Marechal Marquês de Caxias pronunciou a célebre frase “sigam-me os que forem brasileiros”. Com isso o militar angariou apoio da tropa, uniu os conterrâneos que prestavam e conquistou uma importante vitória na Guerra do Paraguai. Se fosse hoje, haveria brasileiros que prestam a segui-lo? Duvide-ó-dó. Seriamos derrotados naquela guerra, como estamos sendo derrotados pelo vírus invisível que nos igualou a todos na vala comum dos cemitérios e crematórios. Somos todos imprestáveis?

Insisto: cadê os brasileiros que prestam? Como é que eu vou fazer para casar minhas filhas se não há brasileiros que prestam? Já imaginaram o drama de pais e mães de família (família?) obrigados a trancar jovens em casa até que apareça um brasileirinho que preste?

Brasileiros que não prestam são contrários à vacina e a qualquer tentativa de estabelecer um mínimo de isolamento e distanciamento social. Brasileiros que não prestam são a favor da vacina e acham que quem manda é a ciência.

O Presidente não presta. Quem é contra o Presidente não presta. Os de direita não prestam. Os de esquerda tampouco prestam. Os de Centro então, não prestam porque não descem do muro! Os técnicos de futebol vitoriosos não prestam, os derrotados não prestam, Neymar não presta, Tite não presta, o âncora do noticiário da TV não presta, a cozinheira do pastel de feira não presta…

Ei, Brasileiro que presta, apresente-se!

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2 Comentários

Anônimo 5 de maio de 2021 - 19:29

Fico entre o riso e a estupefaçao com sua crônica Ingo Ostrovsky. Acho até que a maioria do povo brasileiro presta. E muito. Mas, onde estamos?

Responder
Ana Helena Nogueira Ribeiro Gomes 2 de maio de 2021 - 08:43

Incorporei às manhãs de domingo a leitura da crônica de Ingo. Uma melhor do que a outra. Todas prestam!

Responder

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