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Pernas Curtas

Por Maya Santana

“Esta semana, num evento com transmissão ao vivo, que acontece no Senado Federal, em Brasília, fomos apresentados a alguns craques de pernas curtas”

Ingo Ostrovsky, 50emais

“A mentira tem pernas curtas”. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos na primeira vez que ouvi essa frase. Foi na escola. Um garoto foi pego numa daquelas mentiras de criança e tomou um sabão da professora. Fiquei intrigado. Como assim “pernas curtas”? Aonde a mentira pensa que vai?

Gosto de futebol mais ou menos desde aquela idade. Se já tínhamos Garrincha, o craque das pernas tortas eu dedicaria boa parte do meu tempo nas arquibancadas a procurar o craque das pernas curtas, um goleador que a torcida pudesse aplaudir. “Vai, Mentiroso, faz mais um prá gente ver”.

Esta semana, num evento com transmissão ao vivo, que acontece no Senado Federal, em Brasília, fomos apresentados a alguns craques de pernas curtas. Mentir pode parecer fácil, mas não é. Exige prática e habilidade. Como dizem os ingleses, a mentira não anda sozinha, ela precisa de pelo menos mais 20 mentiras para lhe fazer companhia. Sozinha, ela fica com cara de boba e deixa de cumprir seu principal objetivo: faltar com a verdade.

Não adianta você contar uma mentira se não tiver uma outra para apoiá-la. Os homens pegos com ‘baton na cueca’ sabem disso e suas mulheres também.

Nossos dicionários oferecem vários sinônimos para a palavra mentira; engano, fraude, falsidade, erro, ilusão. O mentiroso, sempre segundo os dicionários, é um ser enganador, um trapaceiro, comete uma impostura, tenta enganar contando uma mentira que pretende seja verdade. Mentir é contar uma ficção. Nossos brilhantes ficcionistas sabem que isso não é para qualquer um. Se bem que os mentirosos que se apresentaram esta semana estavam longe de ser “qualquer um”. Era gente de colarinho branco, mentirosos federais, gente de alto coturno.

Essa é a mentirinha carioca tão popular no Rio de Janeiro

A complexidade de mentiras e mentirosos é muito bem ilustrada pelo dicionário Aurélio. Ele cita o Paradoxo de Eubúlides de Mileto, do século IV antes de Cristo: “se alguém afirma “eu minto” e o que diz é verdade, a afirmação é falsa; e se o que diz é falso a afirmação é portanto verdadeira e, por isso, novamente falsa”. Viu, a coisa é realmente paradoxal e não é simples. O assunto é bem mais antigo do que a gente pensa. Na verdade, a mentira nasceu com o ser humano.

Qualquer pescador sabe contar uma mentira. Já existe a expressão Mentira de Pescador que é quase uma piada. Entrou no folclore nacional a ponto de pescador nenhum contar uma bravata sem mostrar a foto do pescado.

Mentir, de verdade, é para profissionais!

Para você não ficar achando que só existe mentira do mal, vou te contar uma mentirinha de verdade. Dois dos dicionários que consultei tem o verbete mentira-carioca, conhecida nas ruas como mentirinha. Adoro, com café. Os dicionários discordam quanto ao formato das mentirinhas. É um biscoitinho de polvilho redondo, menor do que uma moeda de R$1. O Houaiss diz que elas são em forma de bastão ou rosca. Eu conheço melhor a versão do Aurélio, redondinha e achatada, leve e crocante. Os garços do Senado estão liberados para servir potinhos de mentirinhas a Suas Excelências. Não é crime!

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1 Comentários

Ana Helena Nogueira Ribeiro Gomes 23 de maio de 2021 - 09:06

Cada vez melhor, Ingo! Amei.

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