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Sofisticação da morte

Por Ingo Ostrovsky

“Não consigo ver normalidade nas fileiras de novas covas que se abrem às centenas nos cemitérios de todo o Brasil”. Foto: O Globo

Ingo Ostrovsky, 50emais

São tantas emoções!

Talvez essa seja uma das poucas unanimidades nessa pandemia. Todos os dias somos submetidos a fortes emoções. Participo de dois grupos de whatsapp que esta semana foram impactados pela alta hospitalar de dois amigos depois de semanas de internação, entubação, extubação, e, principalmente, depois de muita angústia, muita reza, muitas lágrimas, e, agora, muita alegria por um final feliz.

Para os parentes, amigos, vizinhos e colegas de 500 mil brasileiros, entretanto, o final não foi feliz. Foi a morte.

Eu me lembro que lá no comecinho dessa peste o então ministro Mandeta disse que seria preciso preparar cemitérios e isso me soou meio esquisito. Hoje, as imagens não deixam mais dúvidas. Esquisito era o meu ouvido, que não estava acostumado ao que passamos a escutar dia sim, outro também.

Não consigo ver normalidade nas fileiras de novas covas que se abrem às centenas nos cemitérios de todo o Brasil. Duas mil por dia, segundo as contas oficiais. “Essa cova em que estás, com palmos medida (…) é a parte que te cabe nesse latifúndio” escreveu João Cabral de Melo Neto em seu Morte e Vida Severina, em 1955, portanto 66 anos atrás. O que parecia ser uma realidade nordestina se espalhou pelo país e foi dramatizada por uma doença que não permite nem velórios nem despedidas.

O choro da morte agora é solitário!

Diante disso, imagine o tamanho do meu espanto ao abrir uma revista esta semana e me deparar com a propaganda do “melhor e mais moderno crematório do Rio de Janeiro”. Parecia anúncio de festa, daqueles que a gente recebia na praia em tempos passados.

O que seria o “atendimento humanizado” prometido? Vale só para o morto ou para os enlutados também? Com essa mania de ver certas coisas pelo avesso, fiquei curioso em saber como é o atendimento “não humanizado” num crematório. Fica a cargo de feras selvagens? Coiotes? Serpentes venenosas?

Tem mais ofertas no anúncio: “capelas premium”. Já ouviu falar disso? Nem eu! Será que é uma capela com uma chance de ver o morto voltar à vida? Será que o Papa aparece de vez em quando? O Vaticano sabe o que é uma capela premium?

O crematório oferece também um mostruário de urnas, uma variante da linha de caixões fúnebres à disposição de estrelas de Hollywood naqueles enterros cheios de limousines brancas nos Estados Unidos.

Gente, morte é coisa séria e ainda é inevitável. Talvez eu esteja vendo a propaganda da maneira errada, achando que estão brincando com a minha cara só porque não consigo rir da tragédia que estamos vivendo.

Deve ter sido por isso que os responsáveis pela novidade criaram no crematório um “espaço gourmet”. Você pode encher o bucho enquanto estiver no luto. Não ficou claro para mim se algum renomado chef de cozinha está à disposição nesse espaço. Também não entendi se o cardápio é de iguarias que o morto apreciava ou fica naquele mix de croquetes e coxinhas iguais às da padaria aqui na esquina.

Achei estranho também que a propaganda não fala nada de higienização ou distanciamento, coisa que a criativa publicidade brasileira já assimilou. Convenhamos, um anúncio de crematório tinha que mencionar pelo menos uma máscara mortuária. Você não acha?

Leia também de Ingo Ostrovsky:

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A Cara do Brasil

Big Brother Brasília

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Semana Intensa

Cadê os brasileiros que prestam?

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Se ela fosse homem, seria dentisto? E ele? Deveria ser economisto?

Procrastinador: Não deixe para amanhã o que você pode faze dep

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1 Comentários

Nenez 20 de junho de 2021 - 09:38

Que crônica boa!!!! Que bom alguém falar sobre isto!

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